justificativa

Ainda não consigo encontrar uma justificativa forte o suficiente que exemplifique o porquê de eu ter criado isto aqui, ou a motivação real, se é que existe alguma ou se algum dia virá a existir.

Pode ter começado, talvez, como uma tentativa de fuga do ruído das redes sociais e da fadiga provocada pelo doomscrolling. Ou pelo simples desejo de dar vazão a um lado criativo meu, documentando o que estou fazendo e estudando, algo para o qual um blog, journal ou diário tradicional não seriam suficientes.

digital garden

Acabei conhecendo toda a ideia de digital garden através de um espaço que, para mim, talvez seja a maior referência da área; é tudo muito agradável. Recomendo a leitura de A Brief History & Ethos of the Digital Garden (em inglês), que é o melhor indicador do que é um jardim digital e de onde ele se distancia de um blog.

Um dos motivos de isto aqui não ser um blog é que a palavra “blog” me passa a ideia de uma caixa fechada. Exige uma centralização de assunto, uma autoridade sobre o tema e acaba sendo um impeditivo para quem quer apenas aprender durante o processo. Infelizmente, com o surgimento do conteúdo genérico gerado por IA, a necessidade efervescente de sacrificar a qualidade em prol do SEO, e a sufocante exigência de ser especialista para se pronunciar (algo impulsionado pela “creator economy”), ter um blog me parece um beco de paralisia de escolhas. Isso já é impeditivo o suficiente, sem nem entrar no mérito das plataformas em si. Por isso, acabei aqui, num digital garden.

premissas

Se de um lado exige-se a escolha de um nicho e a autoridade sobre um assunto, no outro, tem-se a transversalidade. É a ideia de que tudo se conecta. Assuntos podem estabelecer vínculos e se integrar, oferecendo uma fuga: “sobre o que vou escrever?” em direção a um caminho mais tranquilo, sem pressa. É mais sobre documentar o que estou fazendo e estudando agora.

Esses dias, não me recordo quando e nem o motivo, estava assistindo a algo sobre o tempo de lazer (leisure) que me trouxe uma referência muito interessante, que compartilho em dois fragmentos do filósofo Josef Pieper:

“Leisure is only possible when we are at one with ourselves. We tend to overwork as a means of self-escape, as a way of trying to justify our existence.”

“The power to be at leisure is the power to step beyond the working world and win contact with those superhuman life-giving forces that can send us renewed and alive again into the world of work.”

De certo modo, isso preenche algumas das minhas questões sobre como me relaciono com as redes sociais hoje. Infelizmente, elas me atravessam tanto nos momentos desestruturados de lazer quanto, inconscientemente, durante os meus momentos de produtividade no trabalho.

quebra-cabeças

Então, espero que este lugar que vou habitar, esta estrutura incompleta que buscarei documentar, sirva como alicerce estruturante do meu tempo de lazer. Um lugar onde depositarei o meu hiperfoco do momento e meus interesses que podem ir para todos os campos. Um espaço onde não tenho domínio nem autoridade para falar sobre nada, senão apenas aprender, errar e compartilhar pequenos momentos de experiência (e muita inexperiência) que podem, ou não, me levar a algum fim. Tudo isso sem nenhum tipo de exigência ou meta a ser batida.